Todo livro começa muito antes da primeira página. Começa nas razões pelas quais um autor continua escrevendo.
Quem é Roberto Bonaldo?
Durante muitos anos, acreditei que trabalhar bem significava dedicar tudo de mim ao que fazia.
Foi uma escolha que me ensinou disciplina, responsabilidade e respeito pelo trabalho. Com o tempo, porém, percebi que algumas conquistas também cobram um preço. Foi então que comecei a fazer perguntas que nunca haviam encontrado espaço na rotina.
Existem outras versões de nós mesmos? Qual delas nos permite olhar para a própria história com serenidade?
Não encontrei respostas definitivas. Encontrei histórias. E encontrei, na literatura, uma forma de continuar fazendo essas perguntas.
Para quem escrevo?
Escrevo para quem conhece o peso da responsabilidade. Para quem dedica tempo, trabalho e talento buscando oferecer dignidade à própria vida e às pessoas que ama.
Para quem, em algum momento, também se perguntou como equilibrar trabalho, família, sonhos e a própria existência.
Minha escrita não nasce da intenção de ensinar. Ela nasce da convicção de que algumas perguntas não precisam de respostas prontas. Precisam apenas encontrar um lugar onde possam ser compartilhadas.
Escrever, para mim, é um exercício contínuo de honestidade com aquilo que realmente desejo dizer.
O que sustenta a minha escrita?
Nunca escreveria uma ficção que se afastasse da vida como ela realmente acontece.
Meus personagens podem ser imaginários, mas suas dúvidas, escolhas, afetos e contradições precisam ser verdadeiros. Não romantizo a beleza nem rejeito a imperfeição, porque ambas pertencem à condição humana.
Se uma história perder o contato com a experiência humana, ela deixa de fazer sentido para mim.
O que espero despertar no leitor?
Espero que, ao terminar uma história, o leitor encontre palavras para sentimentos que talvez já existissem dentro dele.
Não escrevo para convencer. Também não escrevo para entregar respostas. Escrevo para que algumas perguntas possam ser vistas com mais clareza.
Se, ao fechar um livro, alguém pensar: "Era isso que eu sentia, mas nunca soube explicar" — então acredito que aquela história encontrou seu verdadeiro propósito.
As leituras que me formaram
As primeiras leituras que me marcaram não estavam nos livros. Estavam nos rostos.
Nos homens e mulheres que, ainda de madrugada, embarcavam no primeiro ônibus que saía de São Mateus em direção ao Parque Dom Pedro, em São Paulo. Rostos cansados. Corpos espremidos pela superlotação. Pessoas que não podiam esperar o próximo ônibus, porque um atraso podia significar perder o emprego.
Antes de aprender com os livros, aprendi observando pessoas. Foi ali que comecei a entender algo que mais tarde encontraria na literatura: toda existência carrega uma história que quase nunca é visível à primeira vista.
Os livros ampliaram esse olhar. Entre as leituras que carrego comigo estão a Bíblia Sagrada e autores como Paulo Coelho, Daniel Goleman, James C. Hunter, Robert Kiyosaki, Barbara Oakley, Joseph Murphy e Napoleon Hill. Cada um deles acrescentou novas perspectivas. Essas leituras continuam me convidando a aprender.
Talvez essa seja, para mim, a maior qualidade de um livro: continuar vivendo dentro de quem o leu.
O que une todos os meus livros?
Interesso-me pelas pessoas comuns. Pelos encontros. Pelas escolhas. Pelas perdas. Pelos recomeços. E pelos pequenos acontecimentos que, muitas vezes, passam despercebidos.
Escrevo como quem observa a vida em movimento. Assim como a alvorada, o entardecer e o anoitecer fazem parte do mesmo dia, acredito que alegria, dor, esperança e dúvida fazem parte da mesma existência.
É esse olhar para a experiência humana que procuro preservar em cada livro, mesmo quando as histórias seguem caminhos diferentes.
— Roberto Bonaldo