A chave girou. A porta abriu. Fechou.
O barulho ficou do lado de fora. Buzinas. Uma conversa interrompida. O motor de algum carro acelerando longe. A cidade continuando sem ela.
Dentro, silêncio.
Sara encostou a bolsa na parede. Não jogou. Encostou.
O casaco foi para o gancho. Movimento antigo. Sem pensar.
Permaneceu um instante no corredor. Transição.
Um segundo para lembrar que chegou.
O quarto de Noam estava com a porta entreaberta. Luz acesa. O som leve do lápis no papel.
Sara empurrou devagar.
Ele estava sentado na beira da cama. Caderno no colo. Concentrado. A língua levemente presa entre os dentes, como sempre quando desenhava.
Não percebeu ela entrar. Sara ficou um segundo só olhando.
Depois se aproximou. Inclinou. Beijou o topo da cabeça dele.
Noam não levantou os olhos. Só acomodou o ombro, levemente, como quem reconhece sem precisar ver.
— Quer chocolate quente?
Ele levantou o rosto. Os olhos acenderam antes da boca abrir.
— Siiiiiim
A palavra saiu longa. Cinco sílabas pelo menos. Como se o sim precisasse de espaço para caber.
Na cozinha, acendeu a luz. Abriu o armário de cima.
A cafeteira estava no lugar certo. Sempre estava. Ela mesma que garantia isso.
Colocou o pó. Mediu com a colher de sempre. A dose que Noam achava forte demais e ela achava certa.
Depois o leite. A panelinha pequena. Chama baixa. O achocolatado foi junto. Duas colheres. Mexeu devagar para não empelotar.
Enquanto o leite esquentava, abriu a bolsa.
A agenda estava no bolso externo. Capa de couro falso. Borda começando a descolar.
Abriu no meio da semana. Reunião na quinta. Entrega do relatório na sexta. Consulta de Noam na quarta às quatro. Precisava sair mais cedo. Precisava avisar.
Passou o dedo pelas linhas. Para confirmar o que já sabia.
Fechou. Devolveu para a bolsa.
Na panelinha, o leite começava a fumegar pelas bordas. Mexeu de novo. Tirou da chama antes de ferver.
Despejou na caneca grande. A de Noam. A que ele escolheu numa loja de utilidades dois anos atrás. Tinha uma tartaruga na lateral. Ela deixou porque custava três reais a mais e não era hora de dizer não para tartaruga.
A caneca ainda estava boa. Atrás dela, um barulho. Passos. A caneta caindo no chão do corredor.
Depois Noam apareceu na entrada da cozinha. Caderno embaixo do braço. Meias diferentes. Uma listrada, uma lisa.
— Tá pronto?
— Quase. Vai lavar as mãos.
Ele olhou para as próprias mãos. Considerou.
— Tão limpas.
— Mãos de quem estava desenhando nunca estão limpas.
Ele virou sem discutir. Desapareceu no corredor.
Sara ouviu a torneira abrir. Fechar rápido demais para ter lavado direito. Deixou passar.
Colocou as canecas na mesa. A dela menor. Café mais escuro.
Buscou os biscoitos no armário de baixo. A embalagem estava quase no fim. Colocou o que restava num pratinho. Não encheu. Não havia mais para encher.
Anotou mentalmente: biscoitos. Junto com sabão em barra. Fio dental. Pilhas para o controle. A lista sem papel. A que aparecia quando menos precisava.
Noam voltou. Sentou na cadeira dele. A que ficava de costas para a janela porque ele dizia que a luz atrapalhava ver o caderno.
Pegou a caneca com as duas mãos. Soprou. Esperou. Soprou de novo.
Sara sentou do outro lado. Segurou a própria caneca. O calor subiu pelas palmas.
Por um momento nenhum dos dois falou.
O apartamento estava quieto.
A geladeira zumbindo baixo. O relógio no corredor. O som da rua chegando amortecido pela janela fechada.
— Hoje desenhei uma coisa que não parecia nada — disse Noam.
— Como assim?
— Não parecia nada. Só linha.
Sara olhou para ele.
— Ficou boa?
Ele pensou.
— Não sei. Não parecia com nada.
— Às vezes é assim.
Noam fechou o caderno. Passou a mão na capa.
— Eu guardo mesmo assim.
— Por quê?
— Porque um dia pode parecer com alguma coisa.
Ele aceitou. Bebeu um gole. Fez uma careta leve pelo calor.
Sara tomou o dela devagar. O gosto era o mesmo de sempre. Doce demais para ela. Certo para ele. Ela fazia do jeito dele há quanto tempo? Não lembrava quando havia deixado de fazer diferente.
Depois que ele foi escovar os dentes, Sara ficou na mesa.
As canecas ainda lá. A dele com fundo de chocolate.
Não levantou na hora. Ficou olhando a cozinha. A panelinha na pia esperando. A agenda na bolsa. A lista invisível. O pratinho com migalhas. Passou o dedo pela borda da mesa.
Madeira gasta. Não limpou. Só deixou a mão ali por um segundo. Levantou. Lavou as canecas. Secou. Guardou.
A panelinha também. Apagou a luz da cozinha.
No corredor, passou pela porta de Noam. Entreaberta. Luz apagada. Respiração lenta.
Parou. Só por um segundo. Depois seguiu para o quarto dela.
Não ligou a TV. Não abriu o celular.
Sentou na beirada da cama. Tirou os sapatos. Um. Depois o outro. Os pés tocaram o chão frio. Permaneceu assim por um instante. Sem plateia. Sem prova.
A cidade lá fora continuava. Buzinas. Vozes. O ritmo de tudo que não para. Ela parou. Soltou o ar. Os ombros desceram um centímetro.
Só por hoje. Só por agora. Era suficiente.